Pular para o conteúdo

Quem foi Martinez de Pasqually

Martinez de Pasqually (c. 1727 – 1774) é uma das figuras mais enigmáticas do esoterismo ocidental. Mestre maçom, teurgista e fundador de uma ordem iniciática, ele é o elo que dá nome a duas correntes distintas: o Martinezismo (sua própria doutrina teúrgica) e o Martinismo (a via mística posterior de seu discípulo Saint-Martin).

De origem incerta — provavelmente espanhola e de ascendência judaico-portuguesa convertida —, Martinez surgiu na França maçônica por volta de 1760, percorrendo as cidades do sul (Toulouse, Bordeaux, Paris). Em 1767 estabeleceu em Bordeaux a estrutura definitiva de sua ordem.

Era, segundo os testemunhos da época, um homem de sinceridade ardente, indiferente a qualquer suspeita, esforçando-se por retornar aos princípios essenciais da franco-maçonaria — que ele julgava terem se afastado de seu verdadeiro sentido.

Martinez não buscava uma maçonaria simbólica e social. Sua obra foi a fundação dos Cavaleiros Maçons Eleitos Cohen do Universo (Cohen = “sacerdote”, em hebraico) — uma ordem cujo coração era a teurgia: a prática de operações rituais destinadas a reconciliar o homem com o divino e, eventualmente, a obter sinais sensíveis dessa reconciliação (os Passes).

Diferente da maçonaria comum, os Eleitos Cohen praticavam a operação — invocações, ciclos lunares, cultos — fundamentadas na doutrina exposta no Tratado da Reintegração.

O Tratado da Reintegração dos Seres foi escrito em Bordeaux por volta de 1770 e nunca publicado em vida pelo autor. Pasqually deixou a França em 1772, partindo para Santo Domingo (atual Haiti) para tratar de uma herança, e ali morreu em 1774, deixando a ordem e o manuscrito a seus discípulos.

A obra que lemos hoje foi reconstituída a partir de passagens dispersas entre instruções rituais — o que explica sua forma irregular e suas repetições. É, ainda assim, a exposição mais completa de sua doutrina, “sem qualquer adição ou subtração”.

Dois discípulos prolongaram sua obra em direções opostas:

  • Jean-Baptiste Willermoz, que integrou a doutrina à maçonaria templária (o Regime Escocês Retificado);
  • Louis-Claude de Saint-Martin (o “Filósofo Desconhecido”), secretário de Martinez, que abandonou a via teúrgica ativa em favor de uma via interior e mística — origem do Martinismo.